terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Fragmentos de fim de tarde

Presa no trânsito do fim do dia, o meu olhar fixa-se numa senhora na paragem de autocarro do outro lado da rua. Acompanham-na um adolescente e uma criança que percebo serem seus filhos. Está em pé, carregada com sacos de compras nas duas mãos e procura, na carteira, o passe que validará a sua viagem. Imagino que vá para casa, sinto-a cansada, olhar vazio na tarde quase noite, o jantar por fazer. E eu ali, sentada no carro, sem compras, nem filhos, nem preocupações em chegar.
Lá longe, no cruzamento, o motorista do autocarro que esta senhora aguarda, manobra a curva apertada. Os filhos agitam-se e a mais nova pede para comprar, ela, o seu bilhete de transporte. A mãe consente e, quando finalmente o autocarro pára e as portas se abrem, o motorista troca palavras e sorrisos com a menina. A cena é breve mas tão confortável de assistir, pela atitude simpática, os gestos afáveis, a disponibilidade do motorista. E eu ali, parada no carro, a pensar como é bom ver alguém, que conduz vidas e humores (e mães cansadas) pelos subúrbios da cidade, aparentemente inume ao caos do trânsito por onde circula, tão bem consigo, um sorriso que desarma, numa felicidade que se sente.
Avanço no semáforo, o autocarro prossegue no sentido oposto, o meu olhar cruza-se com o do motorista. Sorrio-lhe, agradecida, e desejo que consiga contagiar aquela senhora, e os outros passageiros, com a sua boa presença. Tal como conseguiu comigo.

7 comentários:

  1. Belo relato de fim de tarde.

    De certeza que assim consegues contagiar mais gente que leia este teu texto.

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  2. faltam motoristas que sejam assim, neste querido Portugal.

    bjos, ó Sra. Giraça!!!

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  3. só com a tua descrição já me contagiou... :)
    bjs

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  4. Ainda há pessoas assim. Tão simplesmente de bem com a vida.

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  5. não sei quanto aos passageiros, mas a mim, este texto contagiou-me de certeza.
    :D

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  6. ... belo momento que inspirou a sensibilidade que escreveu o texto :)

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