segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Gritos livrescos


Tenho duas prateleiras da estante do escritório cheias de livros que ainda não li. Não estão lá para fazer figura, para parecer bem, mas por método. São, precisamente, os livros que ainda não li e não os quero misturados com os outros, ou perco-lhes o rasto. São livros que me foram oferecendo ou que eu própria comprei em ocasiões de preço mais baixo, como a feira do livro (que este ano não fui), uma promoção online e por aí fora.
Os livros ali ficam, nas prateleiras dos não lidos, como que a dizerem-me que gastei o dinheiro mal gasto ou que aproveito mal o tempo para as coisas boas, como a leitura (eles não sabem que eu tenho um ebook reader e que vou lendo por lá também). Até que um dia, um desses livros grita mais alto que os outros, mostrando ser o tema de eleição para aquele momento. E lá vou eu, disciplinada, obediente, buscá-lo para o ler.
De momento estou a ler um livro que me foi oferecido há uns dois anos, pelo meu aniversário. Quem mo ofereceu estava entusiasmadíssimo, porque achou que o livro era a minha cara: um romance que se passa num laboratório onde se descobre, através de testes em ratinhos, um vírus que cura um determinado tipo de cancro. Pelo caminho, refere os relacionamentos entre colegas, descreve o tipo de vida dos pós-doutorados, os métodos de trabalho, as politiquices científicas. O estilo de escrita não é completamente da minha preferência, o tema, na altura em que mo ofereceram, era demasiado colado ao meu dia-a-dia (tirando a descoberta de uma cura para o cancro, infelizmente) para me apetecer mais do mesmo quando chegasse a hora da leitura que, no meu caso, é antes de dormir, se durante a semana, ou por períodos mais alargados, se ao fim de semana. Bem me bastavam os assuntos do meu laboratório, o relacionamento com meus colegas, os métodos científicos (ou não) durante o dia todo para, depois, ainda ir para casa ler os de outro laboratório, mesmo que fosse ficção. Mas agora, depois de o livro me ter gritado há dias, estou a lê-lo com interesse, distanciamento e um certo gozo. O livro teve razão em chamar-me da prateleira. Esta é, está a ser, uma boa altura.

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