terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Cogumelos.

Os meus pais andam cada vez mais entretidos na sua vida rural de fim-de-semana. De tal forma que, se antes iam dois dias por semana à quinta, agora vêm dois dias por semana a Lisboa. Começaram com as árvores de fruto escolhidas a dedo, passando por um jardim com as rosas mais bonitas e de cores improváveis, orgulho da minha mãe, depois por uma mata privada de carvalhos, pinheiros mansos e outras que não sei a espécie, de folha violeta, orgulho do meu pai. Acharam graça à agricultura biológica e daí até terem uma horta de produtos criteriosamente seleccionados (atendendo aos gostos da filha) foi um passo. E foram muitas as semanas em que, para abastecer o frigorífico eu não ia ao supermercado, ia a casa dos meus pais.

Um engenheiro agrónomo amigo deles, igualmente entusiasta destes projectos, vai muitas vezes visitá-los com novas ideias. A última que me lembro foi a das galinhas, umas castanhas e relativamente pequenas, que voam e fazem ninhos nas árvores. O galo é até uma ave muito bonita, nem se compara aos desinteressantes galos brancos de crista vermelha. Acontece que onde há cães em liberdade não há galinhas que sobrevivam e, depois de fazerem o luto às primeiras que serviram de repasto aos dois exemplares caninos que habitam aquelas paragens, os meus pais não tiveram outro remédio senão mandar construir um galinheiro. Com uma árvore lá no meio, que não se fez a coisa por menos. E elas gostaram tanto que levaram o ano todo a pôr e chocar ovos, dia após dia, ignorando o frio do inverno.

Há uns anos, já não sei quantos, lembraram-se de encomendar árvores micorrizadas de França para que, na altura das chuvas, brotassem cogumelos. Não uns quaisquer, não senhor, mas daqueles gourmet, como os Boletus, os Lactarius e outros que, para variar, não recordo o nome. No final do ano que ainda agora terminou, no período das festas, foram mostrar a quem quis ver os ninhos de cogumelos que despontavam entre carumas e folhas caídas. Estavam radiantes, eram tantos que tínhamos de caminhar com todo o cuidado para não pisar nenhum. Serviram-se entradas de cogumelos, tartes de cogumelos, arrozes com cogumelos, cogumelos gratinados com queijo, cogumelos salteados com alho e flor de sal. Cestas e cestas de cogumelos para comer. Acho que só não tivemos direito a sobremesas com cogumelos. Ao ponto de, a última vez que fui a casa dos meus pais perguntei, a medo, o que era o jantar. Não aguentaria nem mais metade de um.

10 comentários:

  1. Não há melhor terapia para a reforma do que a agricultura. Os meus pais também vêm uns dias a Lisboa e estão os restantes dias de enxada na mão, faça chuva ou faça sol. E, auge da loucura, ficam chateados quando fazem dias seguidos de sol...

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  2. Espectáculo! Quisera eu chegar à minha reforma com vigor e saúde para me dedicar a essas coisas!
    Quisera, não. Quero!

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  3. Acho o maximo esses projectos. Parece q renascem, nao é?

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  4. ahahahh
    deixa lá, pelo menos sabes de onde vêm as coisas que comes... e sempre poupas algum em tempos de crise, não é?

    bjs

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  5. Os meus pais ainda não chegaram às galinhas e aos cogumelos, em tudo o resto, igual.

    :)

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  6. LOL

    Achei muita piada à tua descrição do que é conhecido por cócós e cocoas e da cor nas galinhas.

    Eu pelo contrário nunca tive (em casa do meus pais) galinhas brancas. A essas são chamadas as de aviário as castanhas chamamos-lhes a poedeiras. Os seus ovos são mt mais saborosos.

    Tenho notado que as pessoas que sempre tiveram uma profissão mais exigente em termos intelectuais (não sei se é o caso dos teus pais)têm depois esse tipo de atitude quando arranjam um cantinho. Fazem tudo com um gosto que adquirem ao ver as coisas crescerem pelas mãos deles.

    É uma boa terapia. Andam sempre ocupados e por isso entretidos.

    Quanto aos cães nem todos matam galinhas...eu tive um que só matava patos bravos...nas galinhas não tocava! Tinha-lhes uma raiva...era só eles abanarem o rabo à frente do nariz dele e pronto...passavam para um mundo melhor.

    O galinheiro é uma boa ideia porque assim os ovos não ficam dispersos. Sim porque as galinhas, animais com um cérebro minusculo, por vezes acham sítios esquisitos para pôr ;)

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  7. Eu decidi não chegar à idade da reforma para ter esta actividade.
    E acredita que já aprendi muita coisa, como por exemplo, como capar os tomates, ou saber que a "iágua" é o sangue da terra, e o estrume é o alimento da terra. Inclusivé, já vi cogumelos a nascer, só não percebi bem como ... mas hei-de lá chegar.

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  8. Que giro! Sou mais uma com pais assim. E é verdade essa de que as profissões mais desgastantes a nível intelectual levam a que as pessoas se dediquem à jardinagem e à agricultura. Mal posso esperar por ter a minha hortinha quando for mais velha!!

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  9. se eles precisarem de uma filha emprestada avisa :p eu adoro cogumelos!

    lol

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