terça-feira, 27 de abril de 2010

Madrid

Quando eu era criança, os meus pais iam a Madrid todos os anos. O meu irmão tinha crises violentas de asma e o melhor médico conhecido na altura tinha consultório em Madrid. Faziam a viagem de comboio, em carruagem cama. Num ano ia o meu pai, no ano seguinte ia a minha mãe, uma ou outra vez foram os dois. Com o meu irmão. Eu ia a Santa Apolónia vê-los partir, cheia de pena por ficar. Ao ponto de desejar ter asma para também poder ir a Madrid. Na carruagem cama. Depois voltavam, contentes, o meu irmão por ter ido ao Mc Donalds, a minha mãe ao Corte Inglés e à Calle Preciados, o meu pai pelos quadros do Goya.
Diz-se que os momentos são breves mas as memórias duram uma vida. E eu recordo nitidamente o entrar no comboio para ver onde iam fazer a viagem, da imagem do comboio a afastar-se, de chorar baixinho. Numa dessas vezes, em que fiquei com o meu pai, ele prometeu-me: um dia levo-te a Madrid. Eu levei a promessa a sério. Um dia vou entrar de mão dada com o meu pai no Prado, ver quadro por quadro. E esperei. Passaram muitos anos, veio a adolescência e esqueci, emancipei-me e viajei para outros destinos sem nunca conseguir ir a Madrid. Era uma mágoa à qual me tinha afeiçoado, num orgulho tonto, uma cobrança muda de não conhecer Madrid por falta dele. Não era consciente, só me apercebi do sofrimento que infringia a mim própria há poucos meses, quando resolvi questionar-me, perceber o verdadeiro motivo da minha aversão à cidade.
Recentemente, a minha amiga Xana desafiou-me para umas mini-férias. Era giro fazermos uma viagem juntas, dizia-me, para um destino low-cost, tipo Madrid ou Barcelona. E eu abracei a oportunidade e escolhi Madrid. Porque há pesos que carregamos por opção e ignorância. Não entrei no Prado de mão dada com o meu pai mas entrei com uma amiga do coração. Foi um momento agridoce mas muito libertador. E eu amei Madrid.

7 comentários:

  1. Agora sim, que sensação agradável voltar a ler-te ...

    Nunca fui a Madrid, mas hei-de lá ir um dia ...
    (excepto a Barajas :) )

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  2. Querida Catarina! A coragem de enfrentar o que nos magoou um dia e converter essa dor em alegria e experiência de vida, tão sómente porque nos arriscámos a encará-la de outra forma! Vou seguir o teu blog....como não podia deixar de ser!

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  3. Não me tinha apercebido da importância da viagem! Ainda bem então que foste com a Xana.
    Beijo enorme :)

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  4. Que post tão bonito. :) Fico contente por teres decidido ir e comigo. Também gostei muito!

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  5. Que coragem... eu ia soltando umas quantas lágrimas que para aqui tenho de reserva :)

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  6. Como te percebo. Eu ainda carrego pesos desse genéro, de que me preciso libertar um dia...

    Benvinda e faço minhas as palavras do Ivan.

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